quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Naufrágio

Corria eu desenfreadamente para assistir no majestoso Estádio do Bessa, ao primeiro jogo do “glorioso” em casa, quando fui interpelado, nas imediações do estádio por um funcionário do clube, que me comunicou o resultado aos 20 minutos de jogo (o Boavista já perdia 0-2) . Sentia-me preparado para a amargura da derrota, mas emocionalmente expectante que uma dádiva dos deuses do futebol pudesse inverter o cenário previsível.

Conforme referi, não tive oportunidade de assistir (“in loco”) aos dois lances de infortúnio axadrezado, no entanto, conforme é visível pelas imagens televisivas, foram óbvias as fragilidades defensivas demonstradas nesses lances, assim como, foram recorrentes durante os noventa minutos.

Nessas duas jogadas, podem-se imputar responsabilidades ao Mário Silva (1º golo) e ao Grzelak (2º golo). Contudo, o futebol é um jogo de equipa em que existe dinamismo ofensivo e defensivo de todos os elementos, pelo que, mais grave que os erros defensivos individuais, foi a ausência de compensação/correcção do processo defensivo axadrezado. Nesse sentido, o defesa-central (Bruno Pinheiro) que estava incumbido de “fechar” o lado esquerdo do eixo defensivo demonstrou deficiente posicionamento nessas duas jogadas.

Se para uma equipa experiente, um resultado de 0-2 aos 20 minutos é um cenário difícil de reverter, para uma equipa sem automatismos e experiência, a tarefa afigurava-se quase impossível.

Até ao final da primeira parte era confrangedora a dificuldade da equipa em ligar uma jogada de ataque. Assim como, era evidente a facilidade do Marítimo em criar situações de embaraço no sector mais recuado do Boavista.
Na segunda parte, JP passou a jogar num sistema mais arrojado (4-2-4), em que os elementos de ataque eram (Edgar: esquerda; Bangoura e Fary: centro; Laionel: direita), no meio-campo ficaram abandonados à sua sorte o “estreante” Olufemi e Fleurival.

Face à incapacidade ofensiva da equipa na primeira parte, o nosso treinador vislumbra a única alternativa possível para obter oportunidades de golo, a utilização de passes longos, vulgarmente conhecido por “jogo directo”. Esta solução só poderia ser eficaz, se o Boavista conseguisse colocar as suas linhas muito próximas (“equipa curta”), isto é, o meio-campo próximo dos atacantes para ganhar as denominadas “segundas bolas” e os médios-ala a apoiarem os colegas do meio-campo para assegurarem a recuperação da posse de bola, obrigando a equipa do Marítimo a recuar.

Tal não aconteceu, o que provocou a descrença e insatisfação cada vez maior dos adeptos do Boavista, que apupavam constantemente a equipa. Pode-se levantar a questão da responsabilidade da derrota. Existe sempre a tendência de arranjar um bode expiatório, que inevitavelmente é o treinador. Contudo, julgo que Jaime Pacheco deverá ter pedido à equipa os princípios que acabo de expor. O problema decorre essencialmente dos recursos humanos que estão ao seu dispor.




Jogadores (Pontuação) :


Carlos - 5 : Não efectuou uma exibição isenta de erros, mas exibiu os seus bons reflexos em algumas intervenções difíceis;

Gilberto – 5 : O Marítimo não explorou o seu flanco. Em termos ofensivos, ainda revela alguma timidez.

Ricardo Silva – 5: Algumas dificuldades de comunicação com o seu parceiro da defesa. Mesmo assim, fez alguns desarmes providenciais.

Bruno Pinheiro – 3: Inexperiência colocada em evidência nos dois golos do adversário.

Mário Silva – 2: Substituído nos primeiros 20 minutos.

Olufemi – 5: Boas qualidades técnicas, mas um défice de agressividade defensiva.

Fleurival – 4: Fraca exibição, acusando algum cansaço na segunda parte.

Bosancic – 4: Quando intervém no jogo, evidencia a sua qualidade técnica, mas necessita de se movimentar mais em termos ofensivos. Defensivamente esteve ausente.

Laionel – 4: Esforçado. Revela dificuldades de posicionamento e opta quase invariavelmente pela solução mais complicada.

Grzelak – 4: Ultrapassado no lance do 2º golo, foi obrigado a recuar para lateral-esquerdo. Desadaptado à posição fez uma exibição cinzenta.

Fary – 4: Não foi devidamente servido pelos seus companheiros. Sofreu um “penalty” claríssimo ainda na primeira parte.

Edgar – 6: Entrou aos 20 minutos de jogo. Foi o elemento mais esclarecido do ataque axadrezado. Sofreu um “penalty” escandaloso, numa jogada em que o árbitro o expulsou por suposta simulação.

Bangoura – 5: Entrou no início da 2ª parte, tendo revelado bons pormenores.

Ivan Santos – 6: Sempre que entra em jogo transmite outra acutilância ao ataque do Boavista. Fez uma assistência primorosa que originou o “penalty” não assinalado sobre Edgar.

O Preço da Inexperiência

Por mais paradoxal que possa parecer, é com um sentimento de alguma angústia, mas também de esperança que analiso a prestação do BFC na primeira jornada do nosso campeonato.
Por um lado, é exasperante assistir a uma exibição tão fraca em termos ofensivos, o que decorre do sistema de jogo implementado pelo nosso treinador, que não muda a sua filosofia de jogo. Aposta num 4-3-3, com uma enorme pressão defensiva, colocando sempre 2/3 jogadores próximos do portador da bola da equipa adversária. Tal sistema, exige um esforço físico enorme dos jogadores, que só é possível alcançar quando os níveis físicos e principalmente os níveis de motivação estão em patamares elevados.
Em termos ofensivos, a equipa recorre sistematicamente a passes longos, provenientes da dupla de centrais, em particular, do reforço Marcelão.
Por outro lado, todos os boavisteiros devem regozijar-se pelo empenho e determinação que a equipa demonstrou em campo, nomeadamente, três jogadores provenientes da escola de formação axadrezada, que se estrearam na 1ª Liga (Bruno Pinheiro – 20 anos; Gilberto- 20 anos e Ivan Santos- 18 anos). A continuidade da mística está assegurada. Aliás, o facto do plantel ser composto por jogadores jovens e desconhecidos, é um factor a explorar pelo treinador que aproveita essa vantagem para implementar a sua filosofia de jogo que não se compadece com jogadores acomodados.
O problema poderá surgir se os resultados não aparecerem, pois aí, será díficil obrigar os jogadores a efectuarem pressing constante, quando os níveis de confiança e motivação diminuem.
De facto, não é fácil colocar uma equipa a praticar bom futebol, quando 90% do plantel é constituído por jogadores novos, a maioria deles não conhece o futebol português, provenientes de 13 nacionalidades diferentes. Entendo as lamentações do treinador que não conhecia nem escolheu a maioria dos jogadores. As dificuldades financeiras a isso obrigam. Contudo, julgo que a política de contratações foi incorrecta. Se não há recursos para contratar jogadores consagrados, porque não recorrer às divisões secundárias do campeonato nacional?
Foi visível neste jogo, independentemente do modelo táctico de Jaime Pacheco, que não existia um jogador capaz de fazer a transição ofensiva. O jogador encarregue desse papel (Gajic – 20 anos, proveniente da 2º divisão Sérvia), joga “parado”. O único “sprint” que fez em todo o jogo, foi num lance em que o Grzelak foi quase obrigado a fazer um “desenho” para o sérvio correr e abrir a linha de passe. Não contesto a qualidade técnica do jogador, mas é provável que este tipo de jogadores necessite de um período de adaptação ao futebol português. Enquanto isso não acontece peço ao nosso presidente que contrate um médio que dê qualidade à nossa transição ofensiva, ou que Jaime Pacheco exprimente o Ivan Santos nessa função. O “nosso” Ivan tem entrado nas segundas partes e “respira” classe, não obstante, a sua juventude.





Jogadores (Pontuação) :


Carlos - 5 : Não foi obrigado a intervenções difíceis, com excepção de alguns cruzamentos que resolveu de forma satisfatória;

Gilberto – 6 : Perseguiu o seu adversário directo a “todo o campo”, compensando a inexperiência e desadaptação à posição de lateral, com a determinação de um jogador que pretende afirmar-se esta época. Fez dois desarmes providenciais que impediram o golo do U. Leiria.

Ricardo Silva – 6: Tem sido o “patrão” da defesa. Neste jogo esteve ao nível do que nos habituou na pré-época.

Marcelão – 5: Por não estar ainda adaptado à maior rapidez do nosso futebol, cometeu alguns erros de posicionamento nos primeiros jogos. No entanto, em Leiria, só por uma vez perdeu um lance que podia ter sido fatal para a equipa (está em crescendo).

Mário Silva – 5: Na primeira parte esteve irrepreensível na marcação a Sougou. Maiores dificuldades na 2ª parte, pelo facto do BFC ter permitido maior margem de manobra ao meio-campo leiriense que lançou com mais precisão o seu jogador mais veloz.

Bruno Pinheiro – 5: Abnegado e incansável acorrendo às investidas atacantes do adversário. Pecou apenas pela imprecisão no passe.

Fleurival – 5: Utilizou a sua capacidade física para se impor nos duelos individuais, porém, esteve desastrado a distribuir jogo para o trio ofensivo. Melhorou neste capítulo na etapa complementar.

Gajic – 2: Completamente desfasado do ritmo competitivo do nosso campeonato. Necessita claramente de um período de adaptação para se poder aferir das suas reais capacidades.

Laionel – 4: Dificuldades na recepção e no último passe (dois vectores essenciais para a posição em que actua). De positivo, destaca-se apenas a velocidade e o empenho com que disputou os lances (dispôs da melhor oportunidade da equipa num lance em que evidenciou essas características).

Grzelak – 6: Foi o único jogador que conferiu qualidade ofensiva aos ataques do BFC. Quando tem a posse de bola demonstra intencionalidade e visão de jogo.

Edgar – 6: Jogou na posição de ponta de lança. Teve uma tarefa díficil fruto da confrangedora capacidade ofensiva da equipa. Correu quilómetros e nas raras vezes em que foi bem solicitado, demonstrou a sua qualidade.

Rissut – 3: Jogou “adaptado” a médio interior direito e com excepção de um cruzamento efectuado no início da segunda parte, esteve “ausente” do jogo.

Ivan Santos – 5: Jogou os últimos 20 minutos. Tempo suficiente para se perceber que a qualidade do seu jogo exige um lugar como “titular”, não obstante, os seus 18 anos.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Os três erros de Jesualdo - ainda o último FC Porto - Sporting

Jesualdo Ferreira é um técnico que merece o meu respeito por, tanto quanto me apercebo, ser alguém sério no trabalho que faz, convencido de que está a fazer o melhor possível. Mas uma parte do problema estará aí: a ele, é-lhe possível pouco. Claro que no contexto actual dos treinadores portugueses, Jesualdo será um dos mais competentes; mas só por si isso não quererá dizer muito: à excepção óbvia de José Mourinho, que outro treinador português gostaria eu de ver a treinar o FC Porto?...

Por isso mesmo, e tendo em conta o contexto em que foi contratado, Jesualdo Ferreira no FC Porto será um mal menor. Cumpre os serviços mínimos (foi campeão e chegou aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões), mas faltar-lhe-á o golpe de asa para mais. Neste último FC Porto – Sporting isso foi, mais uma vez, evidente.

Desta feita – e por uma vez! -, o FC Porto não mudou a sua estrutura habitual para defrontar uma equipa da sua igualha. Começámos bem, portanto. E, na verdade, o FC Porto dominou claramente o Sporting na primeira meia-hora de jogo, principalmente devido a dois factores:

1- O Raúl Meireles estava a ganhar o seu duelo com o Izmailov, em termos defensivos, maniatando-o e assim emperrando o jogo do Sporting, e por outro lado, através da sua rapidez de movimentação e de passe, conseguia dar apoio aos extremos na fase de construção ofensiva e imediatamente libertar-se da marcação, aparecendo depois em posição de finalização;

2- O Tarik, o mais inspirado da frente atacante portista, estava a fazer gato-sapato do Abel.

Estaria depois a faltar maior acutilância junto à baliza adversária e maior capacidade de finalização dos lances construídos; até aqui, parece-me que o diagnóstico ao intervalo do Jesualdo Ferreira estava correcto; mas ele tentou resolver esse problema tirando o Tarik (como atrás foi dito, a par do Raúl Meireles, tão-só o melhor portista em campo!) e metendo o Hélder Postiga. A partir daí, o FC Porto deixou de ter superioridade nos duelos pelas extremidades do campo, até porque Quaresma não estava em noite particularmente inspirada e Lisandro não é nem poderá ser nunca um extremo. Já o Hélder Postiga tentava batalhar contra os centrais contrários, mas agora poucas bolas lhe eram servidas.

O Sporting entrou melhor na segunda parte, mas o FC Porto rapidamente reagiu. Entretanto, chega ao golo de forma fortuita, porém merecida e regulamentarmente. Agora, o Sporting teria de se abrir mais em busca de um resultado positivo e esperava-se que o FC Porto aproveitasse as brechas para, em rápidas transições ofensivas (terminologia tão querida do treinador portista...), semear o perigo junto à área contrária e obrigar os lisboetas a porem-se em sentido. E que faz então Jesualdo? Como entretanto Izmailov havia saído no Sporting, Jesualdo terá achado que o melhor jogador portista então em campo (já tinha sido privado da concorrência de Tarik...), Raúl Meireles, não teria já a capacidade de Mariano González para assegurar essas rápidas transições ofensivas. Poderia até estar muito bem no papel, mas o que se viu foi isto: a saída do melhor portista em campo, o único na altura que estava a conseguir não só ganhar o seu duelo como também a aparecer a desequilibrar em zonas mais adiantadas, dando dimensão ofensiva à equipa; e a entrada de um jogador que, sendo, ao que se sabe, ele sim um extremo, foi jogar numa posição mais central onde nunca conseguiu desequilibrar.

O jogo, por seu lado, ia equilibrando, sendo que, desta feita, o FC Porto não conseguia engendrar jogadas de perigo para a baliza da equipa sulista. Mas os lisboetas também atacavam com muito coração e pouco discernimento e raramente levavam perigo à baliza portista. Até que Paulo Bento decide arriscar, abdica dos dois laterais que tinha em campo, passa a defender com três defesas (Polga – Tonel – Miguel Veloso) e põe mais gente na frente de ataque. Parecia que seria esta a grande oportunidade de o FC Porto assumir definitivamente o controlo do jogo, aproveitando os espaços para criar situações de perigo e sentenciar definitivamente a partida com a obtenção de mais um golo.

Engano, mais uma vez. Em vez de aproveitar os espaços assim criados na defesa lisboeta, mandando Quaresma e Mariano González abrir nos extremos - por conseguinte, obrigando a defesa sportinguista a abrir também - e aproveitando, no adversário, a pouca rotina de centrais assim obrigados a fazer o papel de laterais; em vez de mandar Postiga para o um-para-um com o defesa adversário mais central, mas aproveitando o apoio de Lisandro que assim apareceria como segundo avançado, nas suas costas; em vez de querer conquistar definitivamente a partida, Jesualdo preferiu sujeitar-se à táctica adversária - não aproveitando as suas debilidades - e defender a vantagem mínima.

Num primeiro momento, mandou o Lisandro recuar para o meio-campo, mas logo de seguida fez entrar o Bollati e deixou o Postiga entregue à sua sorte. Até ao fim, o Sporting tentou atacar sob todas as formas e feitios, empurrando o FC Porto para a sua área e a equipa portista foi conivente com esta situação, vivendo os últimos minutos da partida acantonada na sua defesa, com o credo na boca (embora, mesmo assim, o Sporting raramente tenha tido real ocasião para marcar) e incapaz de aproveitar os espaços no meio-campo sulista.

No fim, o FC Porto ganhou e Jesualdo poderá arengar que foi graças à sua estratégia e às suas decisões; na minha opinião, terá sido antes apesar disso...